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| Antonio Pereira da Mota Júnior |
Como nasceu As
Cabeças?!
Pergunta
o curioso. Não achando resposta que satisfaça a raciocínio, deixa de lado, não
mais tentando investigar. Eu, no entanto, investiguei até que encontrei a ponta
e o fio da complexa meada. Em 1914 conheci esta localidade – Cabeças! Cabeças
de quê? Ninguém sabia explicar nada. Curioso, apelei para os velhos naturais da
localidade. Vários deles eram vegetativos. Só queriam viver a vida que Deus
lhes deu. Contudo, continuei investigando. Um certo dia encontrei-me com um
certo velho caboclo, de cabelos lisos, que sabia contar histórias do seu tempo
de menino. Eis, aí! As chamas da minha curiosidade deram labaredas! Cabeças de
quê?... O dito velho Saturnino – era o seu nome – passou a debulhar o conteúdo
do seu raciocínio, armazenado quando criança, o que ouvira dos seus avós...
Aí,
vai a história!
O
nome das Cabeças, gerou, fecundada pelo ódio, vindo à luz no trovejar de uma
arcabuzada.
Nos
idos tempos, quando imperava a lei do mais forte, era, por aqui a grande
artéria de ligação da Bahia ao grande Estado de Minas Gerais. Era por essa
longa via pública que vinham as grandes tropas de muares e cavalares,
escoteiros e carregados, além dos grandes boiadeiros, vindo e indo, tudo, nesse
afã de tráfego, de ligação com aquele grande e produtivo Estado mineiro. Havia,
aqui, neste trecho, de longa e movimentada estrada, um bifurcamento, cujo
desvio ia ter ao Rio Paraguaçu, achando-se, até o presente, a dita Estrada, na
Praça-Sede, deste novo município “Governador Mangabeira”.
Era,
então, esta região de rara habitação e de múltiplos perigos, quando os raios de
certa manhã, ao levantar o manto da noite que findava, chocaram-se e estremeceram-se
de espanto ao descobrir, os olhos esbugalhados, das cabeças humanas enfiadas em
pontas de estacas! Era o banditismo em ação! Era a época do bacamarte
traiçoeiro! Era a época das chacinas, frias, encomendadas! Aí mesmo, ao lado,
no leito da via pública imperial, jaziam os corpos decapitados. O trecho,
local, não tinha, até então, segundo parece, nenhuma denominação, visto que, o
escabroso acontecimento figurara nos olhares assustados dos transeuntes às
pontas das estacas dando nome daqueles cofres do pensamento, ali, trancados
para eternidade, pelo chumbo-quente, como legado, até o dia 14 de março,
próximo passado, quando, em comemoração ao aniversário de nascimento do maior
poeta das Américas – Antonio de Castro Alves – teve seu segundo batismo – sendo
este soleníssimo – recebendo o nome, sublime por todos os títulos, de “Governador
Mangabeira”. Essa grande data foi um pensamento feliz do Industrial José
Carvalho, que, por intermédio do Dr. Pedro Cone, Presidente do Instituto
Bahiano de Fumo, que valendo-se da sua influência junto ao Governador Juraci
Magalhães, conseguiu a promulgação naquele dia, revivendo, assim, aquela grande
data, juntando a esta nova, que surgiu, unindo-as numa magnífica dupla, que as
gerações do porvir haverão de comemorar, com orgulho.
Ficaram,
assim, enterradas as Cabeças que estavam insepultas... mas a história continua!
Este texto constitui a
íntegra do capítulo I do livro “Chacina que deu nome à localidade” de Antonio
Pereira da Mota Júnior, publicado em Maio/1962


















